UM RETRATO PANORÂMICO DO
LIVRO PROFÉTICO DE JEREMIAS
Jeremias viveu quando o mapa político do mundo estava sendo
redesenhado. A Assíria estava em decadência, A Babilônia em ascendência, e o
Egito estava pronto para afirmar sua autoridade. O pequeno reino de Judá,
encurralado no meio destas grandes potências, sempre estava sob ameaça. Outra ameaça era A CRENÇA DO POVO EM SUA PRÓPRIA INVENCIBILIDADE. Um século antes,
Jerusalém sobrevivera milagrosamente à destruição. Em consequência disto, o
povo passou a ter uma crença dogmática que a cidade jamais cairia, e que a
dinastia do rei Davi não teria fim. Foi
nesse contexto turbulento e com recusa obstinada de seu próprio povo de
enfrentar as difíceis realidades políticas de um mundo em transformação que
foram moldados a vida e o ministério de Jeremias. Nascido em Anatote, uma aldeia a nordeste de
Jerusalém, onde seu pai era um sacerdote hereditário, Jeremias era um dos
filhos mais moços de uma família que certamente era feliz. Durante toda sua vida, o profeta recordou-se
das imagens e experiência de sua infância. Ele amava o mundo natural. Observava
a migração dos pássaros (CP 8 V 7),
conhecia os hábitos da perdiz (CP 17 V 11),
mas sob sua visão profética estas coisas se tornaram algo mais: a amendoeira em
flor, o lavrador limpando sua terra, eram, para ele, revelações do ministério
divino. Foi nessa situação de vida que
Jeremias recebeu o chamado profético.
Desde o início ele foi um profeta relutante, e jamais deixou de debater
as aflições do seu cargo com Deus (CP 1
V 6, CP 17 V 16, CP 20 VS 7 AO 9). Estas e outras passagens nos permitem
ver o enorme fardo da responsabilidade que ele tinha de carregar. Ele parecia
não ser o tipo de pessoa firme e forte que se espera que um profeta normalmente
seja. Percebemos o quão difícil deve ter sido para ele ser proibido de se casar
e constituir uma família (CP16 VS 1 AO 9).
Sensível, com excepcional tendência a demonstrar afeto, ele recebeu a “missão
de arrancar e derrubar, destruir e arrasar” (CP1 V 10) entre o povo que amava. Era um caminho sofrido, do qual,
apesar dos resmungos, Jeremias jamais se esquivou. Suas profecias são
comoventes e, às vezes chocantes. Ele queria dar sua missão por encerrada, mas
o poder de Deus não o permitia (CP 20 V 9).
O texto, às vezes biográfico, às vezes autobiográfico, permite que vejamos como
o sofrimento resultante de seu chamado moldou profundamente o caráter deste
homem. Sua compreensão das coisas
resultou de experiências pessoais de uma vida vivida ao arrepio da sociedade,
mas em lealdade total à Deus. É provável
que no início de seu ministério Jeremias estivesse associado às reformas de
Josias. Isto envolvia o fechamento dos
altos de Judá para centralizar a vida religiosa da nação em Jerusalém, ação que
deve ter causado conflito com sua família.
Há uma dor oculta nas profecias do CP 1 que provavelmente originou-se
disto. Daquele momento em diante A
SOLIDÃO FOI CARACTERÍSTICA MARCANTE DA VIDA DE JEREMIAS. Jeoaquim, filho de Josias, não deu
continuidade à política de seu pai. Em
resposta, Jeremias e outro profeta chamado Urias, se apresentaram para defender
a pureza da adoração do templo (CP 7). Jeoaquim considerou isto rebelião declarada e
ordenou que fossem presos. Urias fugiu para o Egito, mas acabaria sendo trazido
de volta e morto. Quanto a Jeremias,
parece que foi protegido pela poderosa família de Safã (CP 26), uma família de escribas que continuaria a apoiá-lo nos anos
seguintes. Cada vez mais o pequeno reino
de Judá sofria ataques vindos do nordeste. Jeremias estava convencido de que,
através de Nabucodonosor, Deus castigaria Judá por sua infidelidade (CP 27 VS 5 AO 11). Ele sugeriu a rendição imediata (CP 38 V 17). Foi um período terrível: o
rei, as autoridades e outros profetas tomaram uma posição contrária. O povo odiava Jeremias. Ele foi banido do templo. Mas, incapaz de
abandonar sua tarefa, ele ditou as profecias a Baruque, e elas foram levadas ao
rei. A descrição vívida no CP 36, do
rei cortando e queimando desdenhosamente as profecias à medida que eram lidas,
destaca o isolamento de Jeremias. Os membros da corte que preferiam o
enfrentamento julgaram que havia chegado a hora. A pregação de Jeremias era um perigoso
derrotismo. Assim, tomaram medidas para
se livrar dele: Jeremias foi preso e lançado num poço. Seria complicado matar um profeta a sangue
frio; assim ele foi abandonado para morrer de fome (CP 38). Jeremias foi salvo
graças à intervenção de um corajoso servo do palácio. Porém Jeremias não era derrotista. Embora, durante este longo período, tivesse
profetizado contra a falsa segurança doas conselheiros do rei, ele estava
convicto de que Deus, futuramente, restauraria Israel. Tanto assim, que comprou um campo e
cuidadosamente guardou a escritura da compra (CP 32). Ele podia ser chamado, ironicamente de “Terror por todos os
lados”, por causa de suas repetidas advertências (CP 20 V4, CP 6 V 25, CP 20 V 10, CP 46 V 5). Mas ele ainda apontava
para a promessa de Deus para depois da destruição. “Só eu conheço os planos que tenho para vocês:
prosperidade e não desgraça e um futuro cheio de esperança. Sou eu, o Senhor,
quem está falando” (CP 29 V 11). Esta esperança foi expressa de forma enfática
aos judeus exilados na Babilônia na visão dos dois cestos de figos (CP 24 VS 5 AO 7). E no momento mais trágico de sua vida,
quando, no ataque final da Babilônia, todos os líderes foram exilados, ele
escreveu palavras surpreendentes de esperança: “tornarei a trazer-vos ao lugar
donde vos mandei para o exílio” (CP 29 V
14). O profeta que sabia o que era
ser ignorado e maltratado jamais perdeu a certeza pessoal de que Deus sempre
estava com ele. Agora, no momento mais
sombrio da história de seu povo, ele podia falar com convicção do Deus que
jamais os esqueceria. São estas
profecias que nos dão a compreensão final e duradoura de Jeremias. Tendo pregado por tanto tempo (SEU MINISTÉRIO DUROU CERCA DE 40 ANOS)
a um povo obstinado, Jeremias teve a certeza de que haveria um novo
começo. A antiga aliança condicionada à
obediência do povo à lei, falhara. Jeremias previu que ela seria substituída por
uma nova aliança, na qual Deus tomaria a iniciativa, tocando cada coração
humano diretamente, revelando-se como Deus de compaixão e amor infinitos, sendo
isso uma VISÃO DA ERA DO ESPÍRITO, a
qual vivemos atualmente.
FONTE: Manual Bíblico SBB; tradução de Lailah de Noronha.
Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2008 - Págs 441/442

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